Fé Cega

"Tenho no peito tanto medo, é cedo/Minha mocidade arde, é tarde/Se tens bom-senso ou juízo, eu piso/Se a sensatez você prefere, me fere/Vem aplacar esta loucura, ou cura/Faz deste momento terno, eterno/[...]." Tom Zé

Fé Cega

"Tenho no peito tanto medo, é cedo/Minha mocidade arde, é tarde/Se tens bom-senso ou juízo, eu piso/Se a sensatez você prefere, me fere/Vem aplacar esta loucura, ou cura/Faz deste momento terno, eterno/[...]." Tom Zé
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Arquivo de: Junho 2007

30.06.07

A verdade de cada olhar

Estamos em uma época de luta total por espaços, de um lado religiosos raivosos, de outro defensores intransigentes da liberdade de expressão.

 
Ambos os grupos no limite da própria ignorância, prontos para se baterem pelas suas verdades, devagar vai se instalando em todos os lugares uma luta por idéias simplistas, as verdades de cada um.


Políticos espertos, como um Bush por exemplo, já perceberam isso, e passam a andar com palavras mansas por trás da pele de lobo. Os defensores da liberdade a qualquer preço estão prontos para mandarem rumo ao paredão seus inimigos mais ferrenhos, cadê a razão em tudo isso???


Quando acontece uma passeata como a do orgulho gay, corre-se um frisson na sociedade, muitos postam as mãos e fecham os olhos e se enojam com o que não querem nem ver, é só procurar que encontramos demonstrações desse ódio camuflado.


Quando um estádio de futebol se enche de fervorosos fiéis, uma parcela da população queria mais era uma bomba caindo e matando a todos. Liberdade, igualdade e fraternidade é algo distante.


Ser ateu é ser ignorante, prega uma maioria. Tentar zelar pelo meio ambiente é algo idiota, regurgita um outro tanto. Ler é burrice inútil, disparam algumas inteligências. Paradigmas modernos.


Me pergunto quando todas as verdades saírem do armário...se vai sobrar alguém para contar a história.

 

 

 

 

s.o.

Com a salvação na cabeça


Enquanto o mundo segue embalado no caminho para o fim, a solução mais óbvia vai sendo testada aqui e ali.



Responsabilidade individual...e não programas televisivos apocalípticos... uma boa educação vale mais do que mil imagens repetidas da burrice humana.

 

 

 

 

s.o.

29.06.07

Qual o escândalo de hoje?

Tenho passado por um momento totalmente preguiçoso. Isso deve algo bem brasileiro, quando estouram os escândalos, as notícias rumorosas, vamos todos para a cabine de comando, reclamamos, chiamos até cansar, depois, esgotados, enojados de tanto rodar como galinha bêbada, mudamos de rumo. Talvez a genética explique isso, pois o barulho é grande, se alguém tivesse alcançado o zé dirceu no ano passado, teria lhe dado mais que uma bengalada, como foi com aquele aposentado. Mas todos os envolvidos com confusões por aqui tem um poderoso aliado, a memória curta do brasileiro, essa preguiça de manter o debate da hora em que ele começa, ao desfecho com a prisão dos culpados, a guilhotina caindo na cabeça. Maluf que o diga, e poderia fazer uma lista infinita dos casos que comoveram a nação, de assassinatos, as roubalheiras sensacionais, tudo caindo no ralo do esquecimento nacional. O brasileiro só gosta de discutir o que está no topo da cadeia alimentar das notícias, mensalão??, operação sanguessuga?, o assassinato do menino?, qual que nada, passaram, perderam a graça. Sentados nas suas mesas de bares, nas cadeiras macias do emprego, em suas casas, só interessa o que é notícia naquele momento, é mania do bom fingidor, lê por cima a notícia, e para se mostrar antenado, esperto, dispara e-mails, comentários, e já sai a caça de um novo caso, bate, amassa, derruba, e sai de perto que nem urubu em tempo de mortandade. Depois quando ninguém é preso, ou quando os bandidos são soltos, eleitos, fica só a certeza geral, "aqui só vai preso pobre e ladrão de galinha", claro que sim, pois somos um povo que faz muito barulho por nada e temos uma memória de hiena, atrás da fedentina que sobe, e só.

 

 

 




s.o.

Elegia a um negro gato

Há dias um gato negro está morto em uma das principais avenidas da cidade. Um automóvel cruel atropelou o animal e com certeza o motorista não parou prestar socorros, ou para ver o estrago que tinha feito, ou tampouco ainda para recolher a prova de seu crime, afinal de contas, sem corpo não existe crime.


Mas não foi isso que aconteceu, o felino ficou ali no meio da pista prestes a ser alvo de mais perversidades em quatro ou duas rodas. Uma alma bondosa o recolheu para encostá-lo no meio-fio que faz parte dum terminal de ônibus, localidade essa por onde passam diversas pessoas todos os dias. E agora jaz ali de forma indiferente. Todos olham, param, outros se assustam crentes de que estão diante de uma macumba, outros disfarçadamente ou até explicitamente colocam a mão no nariz em forma de concha, para inibirem o cheiro desagradável do já estado de putrefação do bichano.


O cômico trágico é que todos demonstram algum tipo de reação diante do ocorrido, é algo que não dá para passar despercebido, porém, ninguém se sente responsável, ninguém se julga capaz de tomar alguma providência e enquanto isso lá está o ex-ser vivo de pernas para o ar desfrutando de sua decomposição, ficando cada dia mais morto no meio da via pública e parece ter morrido se espreguiçando como tantas vezes deve ter feito.


Quantos bons momentos já não viveu o peludo, por quantos telhados já não passou, quantos ratos já não comeu e propiciando assim à cadeia alimentar o equilíbrio ecológico e, de alguma forma, contribuindo para a saúde de seus assassinos e seus comparsas displicentes.


Detalhe, que se trata de um gato negro e seria divagação demais acreditar que até no reino animal exista preconceito. Não quero crer que caso fosse um persa, um siamês, já teriam providenciado o cortejo. Talvez também não se trate de um animal de rua que vivesse de piedade e furtos. Talvez tivesse um dono amoroso que está desesperado à sua procura, sem sequer imaginar que fim teve sua estimação.


Sinto-me como esse gato, se analisar bem todos nós podemos sentir. Estamos vivos é claro, mas estamos jogados em um Estado de decomposição. Morrendo a cada dia, estamos apodrecendo não só nas ruas, mas nos postos de saúde, nos hospitais, nas escolas, nos discursos de Brasília, nas filas de banco, nos preços de supermercado, no vazio da carteira, nos príncipes que engravidam as donzelas no primeiro encontro, nos idosos que morrem e torcem que pelo menos no cemitério tenham lugar reservado pra eles, ainda resta a crença idiota que o inferno não é aqui, e por acreditarmos que já estamos mortos ficamos reclusos curtindo egoisticamente a nossa morte, e os que julgam que estão vivos desfilam a saúde por aí como os pedestres que desprezam, que ignoram o fim do gato e agem que nem o poder público que ergue o máximo sua cabeça diante das almas penadas vivas que o ajudaram subir em seu pedestal.


Ao verme que primeiro roeu as carnes frias do cadáver felino dedico, como saudosa lembrança, esse post. (plágio de citação Machadiana, é obvio)


UMA CARNIÇA


Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante.


As pernas para cima, qual mulher lasciva,
A transpirar miasmas e humores,
Eis que as abria desleixada e repulsiva,
O ventre prenhe de livores.


Ardia o sol naquela pútrida torpeza,
Como a cozê-la em rubra pira
E para o cêntuplo volver à Natureza
Tudo o que ali ela reunira.


E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir.


Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos
De larvas, a escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.


E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,
Que esguichava a borbulhar,
Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,
Vivesse a se multiplicar.


E esse mundo emitia uma bulha esquisita,
Como vento ou água corrente,
Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita
E à joeira deixa novamente.


As formas fluíam como um sonho além da vista,
Um frouxo esboço em agonia,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Apenas de memória um dia.


Por trás das rochas, irrequieta, uma cadela
Em nós fixava o olho zangado,
Aguardando o momento de reaver àquela
Carniça abjeta o seu bocado.


- Pois há de ser como essa coisa apodrecida,
Essa medonha corrupção,
Estrela de meus olhos, sol da minha vida,
Tu, meu anjo e minha paixão!


Sim! Tal serás um dia, ó deusa da beleza,
Após a bênção derradeira,
Quando, sob a erva e as florações da natureza,
Tornares afinal à poeira.


Então, querida, dize à carne que se arruína,
Ao verme que te beija o rosto,
Que eu preservarei a forma e a substância divina
De meu amor já decomposto!


Baudelaire.



t.c.s.

28.06.07

Que era aquilo?

Acabo de assistir um show de horror obrigatório. Um idiota de cabelo comprido que se elegeu deputado e descobriu como sua única função cantar musiquinhas ufanistas tão horríveis quanto as do seu repertório. Depois um Judas que pôs todo mundo na forca para todo mundo esquecer que quem mais a merecia era ele próprio, e o pior é obrigar o aparelho que voluntariamente já exibe mediocridades, exibir um espetáculo medonho desse.
Tem gente que ainda chama isso de política.

t.c.s.